Uns dias atrás numa pastelaria pedi um pastel de nata. Para meu espanto, na primeira trincadela que dei deparei no seu interior com chocolate. Por Mário Rodrigues (Consultor e crítico gastronómico).
Existem doces e bolos que fazem parte da tradição e do imaginário de todos nós. Estou neste caso a referir-me ao bolo-rei, ao pastel de Belém e ao pastel de nata com que normalmente se faz alguma confusão.
O aparecimento do Pastel de Belém remonta a 1837, tendo sido criado pelos clérigos do Mosteiro dos Jerónimos para sua subsistência. Na sequência da revolução liberal o mosteiro fechou, tendo a receita sido vendida ao empresário Português regressado do Brasil Domingos Rafael Alves, continuando a receita na posse dos seus descendentes atuais e no segredo dos deuses e é vendido na famosa casa junto ao Mosteiro dos Jerónimos. O pastel de Belém foi considerado pelo jornal The Guardian como a 15.ª iguaria mais saborosa do mundo.
O pastel de nata surge como uma variante do pastel de Belém, marca e receita registadas e impossível reproduzir, que se disseminou como alternativa pela pastelaria de todo o país mas com ingredientes e massa folhada diferentes. Os Pastéis de nata são muito populares na China, desde os tempos da presença portuguesa em Macau. Em Chinês são chamados "dan ta" (蛋挞), "pastel de ovo". Empresas de fast food incluíram os "dan ta" na sua oferta de sobremesas, fazendo com que desde finais dos anos 90 sejam disponibilizados em diversos países asiáticos.
Já o bolo-rei reza a lenda que a côdea simboliza o ouro, os frutos secos e cristalizados a mirra e o aroma o incenso. A fava simbolizava um diferendo entre os reis magos para definir quem iria entregar os presentes a Jesus, e um pasteleiro decidiu introduzir o referido componente, decidindo-se que a entrega seria feita pelo rei mago a quem saísse, não se sabendo em abono da verdade a qual deles foi. A fava boi abolida por regras comunitárias, mas quando da sua existência, a quem saísse, rezava a tradição teria que comprar um novo bolo. O seu consumo foi introduzido em Portugal por volta de 1869 pela Confeitaria Nacional que nessa altura o começou a confeccionar e que se pensa ter origem Francesa. O bolo-rei esteve para ser abolido em Portugal com a proclamação da República por ter, imagine-se, no seu nome a palavra rei. O bom senso prevaleceu.
Uns dias atrás numa pastelaria pedi um pastel de nata. Para meu espanto, na primeira trincadela que dei deparei no seu interior com chocolate. Devolvi-o, mostrando o meu desagrado e percebi que a introdução deste novo componente é quase assumida como parte integrante do referido doce, não se fazendo a sua distinção. O mesmo acontece atualmente com o bolo-rei, através da introdução do chocolate na sua confecção além de outras variantes. Por absurdo em qualquer um dos casos o nome e aparência mantêm-se, levando o cliente muitas vezes ao engano.
E assim, paulatinamente vamos dando cabo da tradição da nossa doçaria, enveredando nesta suposta inovação e caindo num brejeirismo perfeitamente gratuito que espero tenha cada vez menos adeptos em defesa da nossa cultura gastronómica.
Mário Rodrigues (consultor e crítico gastronómico em www.alivetaste.com)
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*Este texto foi escrito nos termos do novo acordo ortográfico.
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