À Mesa com José Quitério: Restaurante Gambrinus

30 Janeiro 2012

Lisboa sem o Gambrinus não era a mesma coisa. Por José Quitério (www.expresso.pt)

    por escape.pt

    Não seria decente deixar acabar o ano e não celebrar o 75º aniversário do restaurante-cervejaria Gambrinus. Três quartos de século nos contemplam, sempre ali na Rua das Portas de Santo Antão, naquele que continua a ser um dos poucos clássicos de Lisboa que nunca foi roçado pela decadência ou pelo fantasma do encerramento.
    Tudo começou em 14 de julho de 1936 (por coincidência quatro dias antes do alzamiento fascista e franquista que desencadeou a Guerra Civil de Espanha), pelas mãos do cidadão galego Claudino Sobral Portela e do alemão Hans Schpwitzals.

    Posteriormente, desaparecido o teutónico, seriam outros elementos da colónia galega a integrarem a sociedade, na qual Sobral Portela teve predominância até à morte. Na atualidade são proprietários Armindo Seoane e sua filha Ana e Dario Afonso, há décadas na casa (já no início dos anos 70 interpretava superiormente um dos números altos do folclore local, o da feitura dos "crepes Suzette").

    O interior do Gambrinus, à exceção das novas casas de banho construídas em 2003, mantém-se o mesmo desde as grandes obras de remodelação de 1964, sob comando do arquiteto Maurício de Vasconcelos, que além da decoração geral também se encarregou do desenho de candeeiros, mesas e cadeiras em madeira e couro. Entrando pelo nº 25 da Rua das Portas de Santo Antão, a primeira mirada é para a esquerda e cheia de cupidez, pois nesse canto refulge uma pequena ara de alinhados crustáceos e moluscos.

     

    O balcão-bar, com 12 bancos altos, tem adeptos ferrenhos mesmo para refeições pouco ligeiras, e aqui o grande operacional é o veterano e sempre jovem chefe de bar José de Brito (grande especialista em vinhos, neste sítio a aviar praticamente só cerveja). À esquerda, a sala mais pequena, exuberante de conforto aconchegado, madeiras profusas, vitral gambrínico de Sá Nogueira, óleos de Jorge Pinheiro e Espiga Pinto, amesendação insuperável.

    Na continuação do balcão e duma zona de passagem, a sala grande, com a sua magnífica tapeçaria de Portalegre com cartão de Sá Nogueira, uma série de pequenos vitrais do mesmo, peças de porcelana, madeiramentos e granitos. Dizer que se está bem em qualquer delas é pouco; falemos talvez em regalo propiciatório.

    Ouvem-se e leem-se comentários acerca das propostas culinárias consideradas datadas (antiquadas) e da cozinha tida por cansada do Gambrinus. De facto, mudanças na lista quase não as encontro desde o meu batismo gambrínico em 1968. Os nobres peixes fresquíssimos de sempre, trabalhados com simplicidade, convocando os clássicos molhos franceses (holandês, gribiche, tártaro, etc.). Os ex-líbris da casa: empadão de perdiz (segunda-feira), sopa rica de peixe (quarta), eisbein com choucroute (quinta), bacalhau à Chico Lage (sexta), cabrito assado (domingo), marmita de eiró, parrilhada de mariscos, rosbife à inglesa, perdiz estufada com castanhas e sei lá que mais, para não falar dos mariscos (já lá iremos). Sim, senhor, nada disto é moderno ou modernaço, mas eu chamo-lhe, e parece-me que com razão, cozinha intemporal, que tem a vantagem suprema de agradar a várias gerações de frequentadores, que sabem com o que contam. Há coisas que é preciso saber não mudar. Aliás, se por hipótese absurda algum pintalegrete pós-moderno tivesse a ousadia de exibir no Gambrinus cozinha molecular, ou tecno-emocional, ou de extrato similar, a gargalhada viria lá de dentro e ribombaria por toda a rua.

    No que respeita à confeção culinária, a experiência, embora a frequência seja intermitente (et pour cause...), obriga-me à seguinte síntese: pratos sempre bons, mas quase nunca excecionais; satisfação, muito raramente exultação.
    Esta pode reservar-se para a outra faceta da casa, a de cervejaria e marisqueira.

    Excelente cerveja de pressão, branca, preta e de mistura, os melhores mariscos de Portugal servidos com o respeito que lhes é devido.

    A garrafeira é imponente (aqui sempre houve os melhores escanções), mas necessita da introdução de mais novidades.

    Por último a merecer ser o primeiro, o serviço: perfeito, conseguindo que cada cliente se sinta o centro daquele mundo.

    É caro? Pois é, mas não é para todos os dias. Lisboa sem o Gambrinus não era a mesma coisa. Até ao centenário!

    Gambrinus

    Rua das Portas de Santo Antão, 25

    Lisboa

    Tel. 213 421 466 / 213 468 974

    (Aberto todos os dias das 12h00 às 2h00)

     

    E Mais!

    À Mesa com José Quitério: Restaurante Open

    À Mesa com José Quitério: Cervejaria da Esquina
    À Mesa com José Quitério: Restaurante Ribamar-Troia

     

    * Texto escrito nos termos do novo Acordo Ortográfico e publicado na edição da Única de 30 de dezembro de 2011.

     
     

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