Fuso e não fusão. Por: José Quitério (www.expresso.pt)
Não é um fuso de fiar à roca, sim um pau roscado que faz descer ou subir a vara do lagar. Mas primeiro o assento corográfico. Arruda por parte da mãe e dos Vinhos por parte do pai, a meia centena de quilómetros da capital em cujo distrito está inserida, Arruda dos Vinhos é vila e sede de concelho situada num viçoso vale coberto de vinhedos. O foral afonsino de 1160 assinala-a como um dos mais antigos municípios portugueses. Quanto aos atributos vínicos, a vetustez também está provada: lá vêm no Gil Vicente do "Pranto de Maria Parda", como afamados vinhos da época (século XVI), "Os de Abrantes e Punhete,/ De Arruda e de Alcochete,/ De Alhos Vedros e Barreiro". Da toponomástica, importa descobrir a Rua Cândido dos Reis, de acentuado declive, na rotunda cimeira um justo Monumento ao Trabalhador Rural, a meio da descida a Misericórdia (1574) à esquerda, fronteira a uma pequena memória aos filhos da terra caídos na guerra de 1914-18, ao fundo do lado direito o nº 94 que é o do restaurante O Fuso.
Transposta a porta logo se nota o avantajado das instalações. Um longo balcão, o mostruário das carnes, os primeiros grelhadores, o acesso à sala grande, mais grelhadores e lareiras, copas, cozinha, o pátio de calçada à portuguesa que chegou a funcionar a céu aberto agora coberto, outra sala no andar de cima. Sentemo-nos na primeira, a maior (110 manducadores), que foi lagar de vinho e onde avulta decorativamente o tal fuso (ou parafuso). Alto pé-direito, teto com o travejamento castanho-escuro à vista, uma claraboia, paredes brancas sem grande quinquilharia, cadeiras (com costas) e mesas igualmente castanhas-escuras, estas com toalhas e guardanapos de papel e utensilagem banal.
A primeira jornada foi inteiramente dedicada aos dois pratos emblemáticos da casa, verdadeiras atrações pelas quais, segundo os responsáveis, se deslocam respetivamente 60 por cento e 30 por cento dos clientes. A "posta de bacalhau assada nas brasas à Fuso" (32,50 euros) é um postalhão formidando (dá para dois glutões, três normais e quatro idosos) do nosso amigo da Noruega (especial/jumbo), mais de um quilo de lombos e abas, grelhadura em brasa de lenha (excecionalmente ajudada por carvão), acompanhamento de batatas cozidas e grelos (mais pareceram nabiças) levemente salteados.
Demolha perfeita, grelhagem competente (por mim não me importaria que fosse ligeiramente mais passado), a lascar maravilhosamente, num registo de maviosidade, bom azeite (não daqueles que sabem a maçã). A "costela de vaca nas brasas à Fuso" (32,50 euros) é outra peça pujantíssima, um costeletão aí com dois dedos e meio de altura, de vaca não nervosa, sem raça definida, apresentada em tábua, batatas fritas em palitos semigrossos ao lado.
Só com sal e uma pincelada de azeite e alho, pouco passada como convém a carne de qualidade, é um colosso mimoso.
Mas O Fuso não é só isto. Compõem o ramalhete 3 Entradas, 3 Mariscos, 1 Sopa, mais 2 Peixes, mais 5 Carnes e os pratos de dia fixo. Provaram-se "chouriço e morcela assados" (3,95 euros), esta de arroz, razoáveis. O "bacalhau assado no forno" (10,75 euros), com cebolada, acusou deficiências: bacalhau amolengado, excesso de demolha, lasca não viçosa; batata (primeiro encalida e depois fornejada) rija, um bocado crua (cocção curta, incompleta). Ambos pratos do dia (sexta-feira), a "paletilha de cordeiro" (17,50/32,50 euros), com batatinhas assadas e nabiças, revelou boa assadura e provocou a consequente satisfação. Ao "cozido à portuguesa" (13,75 euros), apenas faltou nabo e arroz, de resto as diversas carnes e apêndices de porco tiveram o adequado tratamento no sal e os enchidos não desmereceram.
Queijo da Serra (4,90 euros) bastante apreciável (pasta mole, não de entorna). Nove doces não negligenciáveis.
Carta de vinhos mínima: 15 tintos (5 de Arruda, 5 do Douro e 5 do Alentejo), 5 brancos e 4 verdes. Serviço diligente e amável.
A casa foi fundada em 9 de março de 1973 por Armindo Mera e Henrique Cardoso, sendo hoje gerida pelo filho do primeiro e pelo genro do segundo, e nunca perdeu fama e popularidade. No seu estilo, merece-as plenamente. O fuso daqui não é de fiar, porém O Fuso é restaurante de fiar e confiar.
O Fuso
Rua Cândido dos Reis, 94
Arruda dos Vinhos
Tel. 263 975 121
(Aberto todos os dias)
* Texto escrito nos termos do novo Acordo Ortográfico e publicado na edição da Única de 14 de janeiro de 2012.
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