À mesa com José Quitério: Restaurante DOP

06 Setembro 2010
    por escape.pt

    por José Quitério (www.expresso.pt)

      

    É um privilégio, irrenunciável de cada vez que se vem ao Porto, descer a pé a Rua das Flores, a partir da Praça Almeida Garrett, e regalarmo-nos com esse - nas palavras do indispensável Helder Pacheco - “museu de arquitetura e de elementos artísticos: azulejos, cantarias, varandas, portas e janelas, batentes, tabuletas, (...) arranjos de frontarias de estabelecimentos comerciais, associando madeiras trabalhadas ao metal e ao vidro” (“Porto”, Ed. Presença, 1984). Sem esquecer a paragem gulosa e demorada no alfarrabista Chaminé da Mota, e depois da despedida das Flores com a visão da imponente fachada barroca da Igreja da Misericórdia e do edifício primoroso da papelaria Araújo & Sobrinho, imediatamente se chega ao Largo de São Domingos, que guarda a singularidade de ficar entre cinco ruas e pertencer a três freguesias.

     

    Agora entra em cena o justamente prestigiado chefe cozinheiro Rui Paula. Três anos depois da inauguração do seu excelente restaurante DOC em Folgosa, à beira do Douro, entre Peso da Régua e Pinhão, resolveu igualmente aportar no Porto, e cá temos então o novo (desde março de 2010) restaurante DOP, precisamente no Largo de São Domingos, instalado no que hoje se chama Palácio das Artes e foi convento dominicano e muito mais tarde sede do Banco de Portugal e duma companhia de seguros. A sala de refeiçoar distribui-se por dois níveis (aproveitando o altíssimo pé-direito) e alberga 80 manducadores num espaço moderno em que dominam o castanho e o branco, sem elementos decorativos, com amesendação de qualidade.

     

    A lista de comidas propõe 16 Entradas, 2 Clássicos do Mar (“bacalhau com broa” e “polvo à lagareiro”: vou ali e já venho com esta promoção a clássicos destes dois pratos de moda quase epidémica, quando há muito melhores receitas no catálogo nortenho para ambas as matérias-primas), 4 do Mar, 2 Clássicos da Terra, 4 da Terra e 3 Vegetarianos.

    Existem 3 Menus de Degustação (Douro, do Mar e das Artes, respetivamente a € 55, € 75 e € 65), com alguns pratos não incluídos no cardápio geral.

     

    Novas das provas. O “gaspacho de sardinha” (€ 8) constituiu surpresa, pois não foi sopa, sim os ingredientes vegetais em pequeninos, engrinaldados pelas prateadas amigas e tostas de azeitona. Afinal, uma boa complementaridade no “carpaccio de bacalhau com broa, alcaparras e fígado do mesmo” (€ 10), ultrapassado o receio que este último reavivasse traumas infantis provocados pelo seu ódio. Mesmo reduzido a entrada, agradeceu-se o “bacalhau à Gomes de Sá” (€ 6), em formato cilíndrico, com tudo o que lhe compete e com os sabores que deve ter. Mimoso o conjunto “vieira, ovo de codorniz e vinagreta de mostarda” (€ 12), três moluscos também com cogumelos de entremeio. Apresentação estilizada da entradeira “tripa à moda do Porto” (€ 6), lembrando o símbolo e resguardando o gosto. Mais sintético ainda. Maravilhosamente delicado o “robalo no seu habitat” (€ 22), envolvido em duas variedades de algas, festiva dança de roda a cargo de amêijoas, lingueirões e berbigões trabalhados à Bulhão Pato. Com um arroz australiano naturalmente preto, belíssima se mostrou a coletânea “cherne com arroz negro e ratatouille de legumes” (€ 22). Carne da melhor e ricamente acaudatada no “lombinho maronês com foie gras e batata gratinada” (€ 23). Engenhosa e feliz a combinação “rabo de boi, pezinhos de porco e molho de chouriço” (€ 23), o primeiro desfiado sobre tostas, pão de queijo a assessorar. “Cabritinho e seus miúdos” (€ 23) é modesta designação para o estupendo chibinho, o arroz, as batatinhas cozinhadas com os miúdos, os grelos, isto sim, um clássico de respeito.

     

    Seis sobremesas doces de gabarito, recomendáveis e invulgares (com a pera recheada de creme de ananás, resulta valorizado o aparentemente iconoclasta “pudim abade de Priscos, o seu ananás e sua pera”. A carta de vinhos, da responsabilidade do competente

    e dinâmico escanção Marco Valente, está pujantíssima: só do Douro, por exemplo, regista 173 tintos e 50 brancos; para breve, haverá um total global de 680 referências. Serviço jovem, aprumado e gentil.

     

    Muito em resumo, Rui Paula demonstra uma vez mais as suas capacidades técnicas e criativas, que, ancoradas nas raízes transmontanas e no bom gosto, lhe permitem ser moderno, sem cair em (con)fusões mistificadoras ou pirotecnias bacocas. E a cidade do Porto conta com mais um grande restaurante.

     

    Restaurante DOP

    Palácio das Artes,

    Largo São Domingos, 18

    Porto

    Tel.: 222 014 313

    (Aberto todos os dias)

     

    Texto escrito nos termos do novo Acordo Ortográfico e publicado na edição da Única de 4 de setembro de 2010.

     

    E Mais:

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    Muito Bom! 

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    1 Comentários inserir comentário

    De facto mal posso esperar por experimentar o DOP. Depois de ter conhecido o DOC (que acho fantástico) fiquei com "água na boca".
    Assim o tempo permita, a escolha do DOC (primeiramente) irá para ao blog, presumo que o DOP também, pelo menos assim espero.

    Mário

    www.myfavouriterestaurants.wordpress.com

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