Coisas Boas. Por: José Quitério.
Há que chegar a Belém e à Praça Afonso de Albuquerque. Do topo nordeste desta, onde desagua a Rua da Junqueira, sai ascensionalmente a Calçada da Ajuda. A ela, sem ajuda que a subida é curta. Do lado esquerdo, a face lateral alongada do Museu dos Coches, logo seguida do portão do Pátio das Damas, um dos acessos ao Palácio de Belém. Pela direita, ultrapassa-se a esquina com a Rua do Embaixador e, poucos metros volvidos, aí está no nº 34 o restaurante Coisas de Comer.
A vitrina chama desde logo a atenção pela profusão de elementos agrícolas em disposição decorativa álacre e harmoniosa. Estilo de decoração que se prolonga para o interior, uma salinha onde cabem 26 convivas, de chão de tijoleira e teto tipo caixotão de fundo liso, onde os tais elementos se veem acrescidos pelos mais variados artefactos, em mesas, prateleiras, louceiros, em arranjos coloridos, joviais e de bom gosto. A outra sala (24 utentes), mais para dentro, é mais sóbria e com menos luz, não deixando de proporcionar instalação aprazível.
A lista de comidas começa com um lote de sugestões, exequíveis de segunda a sexta-feira aos almoços, contabilizadas em 3 Sopas, 4 Pastéis, 3 Peixes e Mariscos, 2 Carnes, 3 Massas e 1 Vegetariano. Como na primeira jornada se ficou por esta área, sigam já as notas das provas. Os pastéis são os clássicos de bacalhau, de massa tenra, rissóis e croquetes, que podem ser acompanhados por arroz de cenoura, ou salada mista, ou salada russa, qualquer deles por 8,50 euros.
Prescindindo de companhias, testaram-se o "pastel de bacalhau", oleoso, com os ingredientes necessários mas a massa muito pouco consistente, o que, aliado ao formato minorca, o torna mais permeável ao óleo da fritura; o "pastel de massa tenra", com ela a esboroar-se e o recheio saboroso, embora espapaçado (parece que já ninguém quer respeitar a textura de outrora, com a carne granulada); o "rissol de camarão", o que mais se aproximou do paradigma, de continente correto e conteúdo capaz. Os "filetes de cherne com arroz de lingueirão" (14 euros) tiveram de ser de garoupa e o arroz de camarão: sem que o peixe revelasse extrema frescura, filetes ainda assim potáveis, o arroz felizmente nada amalandrado, com a humidade suficiente e gostoso. No "rosbife com salada russa e batatinhas fritas às rodelas" (10,95 euros), estas últimas chips (não sei se dispensáveis), a salada de frescura larga, liberal e moscovita, a carne bem executada em seu marmoreado, já com mostarda (não seria melhor deixar a opção ao consumidor?).
A carta de comidas propriamente dita regista 5 Entradas, 10 Peixes e Mariscos (camarão em vários preparos, bacalhau, garoupa, sopa compósita, caldeirão, moqueca, folhado), 12 Carnes (bifes e afins são 7) e 4 Massas.
Nas "pataniscas de bacalhau com seu risoto" (12,50 euros), elas em hóstia altinha, muito bem de doseamento de elementos constitutivos e de fritura; o risoto a não deixar de provocar um riso inconformado: então já não serve, ó modismos fatais da nossa idade, o nosso velho arroz de bacalhau? O "pato assado com arroz árabe e doce de framboesas" (16,50 euros) com o marreco a exibir coxas e não só apetecíveis, o doce independente à disposição do freguês, o agulha todo contente a brincar com as sultanas. O "bife à Coisas de Comer" (18,30 euros), assessorado por batatas fritas aos palitos semigrossos e um esparregado honesto, teve como nota distintiva (e anunciada) o molho em que marcava presença chouriço de sangue, que não favoreceu nem prejudicou a excelente carne de lombo. Era domingo e o prato totémico o "cozido à portuguesa" (14 euros). Em bufete, com a parafernália do costume, esteve rico e bem apessoado, sem cortes troikanos nem desgostos pátrios.
Um octeto de doces, com gelados à mistura, cumpre briosamente o seu papel. Carta de vinhos com divisões por região e tipologia, mas sem datas, totalizando 32 tintos, 14 brancos, 4 espumantes e 2 champanhes. A copo servem 7 tintos, 3 brancos e 3 intranquilos. Serviço informado, eficiente e gentil.
Independentemente de alguns reparos que aí ficam, anoto com satisfação quanto de coisas boas este Coisas de Comer (fundado em 1994) tem para oferecer em ambiente condigno.
Coisas de Comer
Calçada da Ajuda, 34
Lisboa
Tel. 213 626 100
(Fecha aos sábados ao almoço)
▼ |
▼ |
▼ |

0 Comentários inserir comentário