Mário Rodrigues: Produtos biológicos…ou talvez não

14 Fevereiro 2012

Sou um adepto dos produtos biológicos, mas não fanático ou fundamentalista. Por: Mário Rodrigues (consultor e crítico gastronómico).

    por escape.pt

    O biológico, significa a “restrição ao uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos, de antibióticos, aditivos alimentares e auxiliares tecnológicos, e outro tipo de produtos” e a “proibição absoluta do uso de organismos geneticamente modificados”, mas, questão fundamental, “garantir alimentos frescos, saborosos e autênticos e ao mesmo tempo respeitar os ciclos de vida naturais”, segundo as regras estabelecidas e disponíveis no site da Comissão Europeia sobre produtos biológicos.

    Sem pretender desenvolver exaustivamente os aspetos relacionados com esta temática, nem é esse o objetivo, existem vários tipos de produtos, sejam carnes, peixes ou produtos agrícolas. Quanto aos animais a sua criação deve ser em liberdade e ao ar livre, fornecendo-lhes alimentos produzidos segundo o modo de produção biológico. Até aqui tudo bem, pois parecem-me ser estes os produtos mais “pacíficos”. Entre escolher um frango de aviário ou um do campo, ou um bife de um animal que pasta livremente em terrenos planos, por exemplo em Pitões das Júnias ou nas planícies alentejanas, escolho logicamente os últimos.

    Concerteza já todos reparámos que a quantidade destes produtos à venda é ínfima relativamente aos restantes. E parece-me que mais grave é o seu aspeto, no que diz respeito aos legumes e frutas, acima de tudo se atendermos que são normalmente mais caros. Infelizmente por vezes os produtos biológicos reconhecem-se ao longe, pois são os menos apetecíveis e muito pouco convidativos ao consumo, quer pelo tamanho quer pela visão que nos proporcionam e nem sempre os mais saborosos.

     

    Quando uma vez chamei a atenção para os aspetos negativos aqui referidos relativamente aos produtos expostos para venda numa determinada loja, uma simpática pequena respondeu “mas são biológicos”. Frase curta e que me deixou a considerar, mas que em abono da verdade não significa nada a não ser literalmente o seu significado.

    As experiências que tive com vinhos biológicos foram até à data bastante negativas, atendendo à relação preço/qualidade. Talvez por isso também se vêm poucos vinhos biológicos a serem comercializados. Aliás os custos de produção biológica são bastante elevados, dada o pouco aproveitamento relativamente ao total que é produzido.

    Algo está errado com o desenvolvimento, que deveria ser sustentado, da agricultura biológica. Investe-se muitas vezes, ou gastam-se milhões em sabe-se lá o quê ou para quê, sendo seguramente esta área que deveria ter uma atenção muito especial, particularmente num país com as características de Portugal, onde a agricultura tem todas as condições naturais para se voltar a desenvolver.

    Embora com um aumento estimado de cerca de 13por cento de penetração no mercado, existe como se vê, uma contradição entre os objetivos da produção biológica e os resultados práticos efetivamente conseguidos até à data. Não se combate nem se inverte esta situação com fundamentalismos mas talvez com mais pragmatismo e objetividade. O biológico pelo biológico já vimos aonde chegou.

    Talvez um meio termo para a utilização, permitida embora com restrições, de alguns pesticidas e fertilizantes sintéticos, seja uma das soluções. Talvez a rotação de culturas, como um pré-requisito para o uso eficiente dos recursos locais e a escolha de espécies vegetais e animais resistentes a doenças e adaptadas às condições locais fosse inteiramente respeitado, se conseguissem melhores resultados. 

     

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    *Este texto foi escrito nos termos do novo acordo ortográfico.

    

     
     

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